1986 foi o ano em que o Trem da Alegria chegou ao auge. O grupo já tinha um álbum de estreia bem-sucedido nas costas, com “Uni, Duni, Tê” na memória de toda criança brasileira. Mas quando Michael Sullivan e Paulo Massadas se sentaram para compor o que seria o carro-chefe do segundo disco, eles não foram de assunto genérico. Foram direto ao ponto: o herói que toda criança do Brasil estava obcecada naquele momento. He-Man e os Defensores do Universo era o desenho que a Xuxa anunciava na televisão e que fazia qualquer criança largar tudo para assistir. A música foi composta como uma homenagem em forma de aventura, com uma letra que citava praticamente todos os personagens do desenho — os heróis, os vilões, até o Gato Guerreiro e a Semente do Mal, um vilão que apareceu num único episódio da série. Esse nível de detalhe não era acidente. Era obsessão de quem conhecia o universo de Eternia de verdade.
Ouça “He-Man” e tente não cantarolar — spoiler: é impossível.
O dia em que o Brasil inteiro tocou a mesma música
O single “He-Man” foi lançado em 15 de março de 1986 e o que aconteceu naquele dia é um dos fatos mais impressionantes da música infantil brasileira. Segundo o Jornal dos Sports, a faixa foi executada mais de 400 vezes nas rádios do país só no dia do lançamento — chegando a ultrapassar 100 execuções diárias apenas entre Rio de Janeiro e São Paulo. Para contextualizar: isso não era streaming, não era algoritmo, não era playlist automática. Era pedido de ouvinte, era programação de rádio, era DJ que colocava o disco de vinil na agulha repetidamente porque o telefone não parava de tocar. A faixa entrou de imediato entre as cinco mais tocadas do país e ficou lá por semanas. O álbum que trazia a canção vendeu mais de 1,2 milhão de cópias — o mais bem-sucedido da história do grupo, certificado quatro vezes platina pela gravadora RCA Victor.
A turnê de divulgação do disco foi igualmente fora de escala: 63 shows, com mais de 400 mil pessoas no total. O Trem da Alegria chegou ao ponto de se apresentar nos bastidores do Cassino do Chacrinha, fantasiados com os figurinos do próprio He-Man, ao lado de nomes como Elba Ramalho e Luiz Caldas. Era pop infantil de verdade, levado a sério como produto cultural — e foi exatamente essa seriedade nos detalhes que fez a música durar décadas. Em 2026, quando o trailer brasileiro do novo filme Mestres do Universo foi divulgado pela Sony Pictures, a canção escolhida para acompanhar as cenas foi essa mesma de 1986. Quarenta anos depois, ainda era a escolha óbvia.
O que a letra de “He-Man” guarda até hoje
A música não é só sobre um personagem de desenho. Para quem cresceu naquela época, ela é um mapa afetivo completo. Cada nome citado na letra — Esqueleto, Man-at-Arms, Teela, o próprio He-Man — era um fragmento do universo que aquelas crianças habitavam nas tardes de televisão. Sullivan e Massadas entenderam que a melhor forma de fazer uma música infantil duradoura não é simplificar. É tratar a criança com respeito, mergulhar no mundo que ela habita e devolver isso em forma de canção. O resultado foi uma faixa que qualquer pessoa que tinha entre 4 e 12 anos no Brasil em 1986 carrega no corpo até hoje — não como lembrança, mas como reflexo. Basta ouvir os primeiros segundos para que alguma coisa lá dentro responda automaticamente.
Se você quer entender como essa geração construiu seus heróis musicais no Brasil, vale lembrar que algumas das vozes que cantaram “He-Man” seguiram caminhos que também ficaram na memória — como em “Quatro Semanas de Amor”, de Luan e Vanessa, gravada por Vanessa, que entrou exatamente nessa formação de 1986 e dividiu o palco nas mesmas turnês que rodaram o país inteiro.
FICHA TÉCNICA
Música: “He-Man”
Artista: Trem da Alegria
Ano de Lançamento: 1986 (15 de março)
Álbum: Trem da Alegria (2º álbum de estúdio)
Gravadora: RCA Victor (atual Sony Music Brasil)
Desempenho: Mais de 400 execuções nas rádios brasileiras no dia do lançamento · Top 5 nas principais rádios do país · Álbum com 1,2 milhão de cópias vendidas · Certificação quatro vezes platina
Composição: Michael Sullivan e Paulo Massadas
Arranjos: Lincoln Olivetti
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