Steven Greenberg não era popstar. Era DJ e produtor em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos — uma cidade que ninguém associava à música pop internacional em 1979. Ele tocava os discos dos outros nas festas, mas num determinado momento decidiu que queria fazer o seu próprio. Criou o Lipps Inc. praticamente sozinho, tocou quase todos os instrumentos nas gravações e procurou uma voz que completasse o que tinha na cabeça. Foi numa audição que encontrou Cynthia Johnson — ex-Miss Black Minnesota 1976, com uma formação vocal que misturava gospel com o melhor do soul americano. A química foi imediata. A faixa que gravaram juntos se chamava “Funkytown“, e foi lançada em março de 1980 pela Casablanca Records.
A música que enterrou o disco — e salvou a pista de dança
“Funkytown” chegou num momento em que o disco estava sendo declarado morto. As rádios americanas tinham acabado de viver o movimento Disco Demolition Night em 1979, onde um DJ destruiu ao vivo caixas de discos de dance music num estádio de beisebol em Chicago. O clima era de velório. Mas a faixa do Lipps Inc. não ligou para isso. Ela pegou a batida eletrônica fria que Greenberg admirava no grupo alemão Kraftwerk e misturou com a voz incandescente de Cynthia Johnson — dois mundos opostos que não tinham motivo para funcionar juntos e funcionaram perfeitamente. A música subiu direto ao topo: ficou quatro semanas no número 1 do Billboard Hot 100, chegou ao primeiro lugar em 28 países e vendeu mais de 20 milhões de cópias em todo o mundo. O que estava sendo enterrado voltou com uma força que ninguém esperava.
A letra de “Funkytown” é propositalmente simples — o refrão “won’t you take me to Funkytown?” se repete 28 vezes ao longo da canção. Mas essa simplicidade é uma armadilha. O que a música diz não é sobre uma cidade real. É sobre um estado de espírito: a vontade de escapar do lugar onde você está, de chegar num espaço onde tudo pulsa, onde a vida tem mais cor e mais movimento. Em 1980, com o mundo saindo de uma década pesada e entrando numa nova sem saber muito bem o que esperar, esse convite ressoou de um jeito que vai além de qualquer análise. Todo mundo queria ir para a Funkytown — mesmo sem saber onde ficava.
Ouça “Funkytown” e preste atenção na voz — porque a história por trás dela é mais surpreendente do que a música em si.
A voz que o mundo ouviu, mas nunca viu
Aqui está o bastidor que a maioria das pessoas nunca soube. Cynthia Johnson cantou cada nota de “Funkytown” — mas não apareceu no clipe oficial que rodou o mundo. No lugar dela, a gravadora contratou uma modelo britânica chamada Debbie Jenner para ser o rosto do Lipps Inc. nas televisões da Alemanha Ocidental e dos Países Baixos. Jenner dublava a música em programas como o Top of the Pops enquanto Johnson ficava fora das câmeras. Era a voz de uma mulher negra de Minneapolis com a imagem de uma modelo branca britânica. A própria Cynthia descreveu o ambiente do grupo como frio e puramente comercial — o oposto do que ela vivia antes, quando fazia parte de grupos de soul da cena local. Ela ficou, gravou, entregou uma das performances vocais mais reconhecíveis dos anos 80 e seguiu em frente. A injustiça ficou nos bastidores por décadas, enquanto “Funkytown” tocava em todo lugar.
Se você quer entender como a virada dos anos 70 para os 80 produziu músicas que atravessaram fronteiras com uma força absurda, vale ouvir também “Major Tom (Coming Home)”, do Peter Schilling — outro caso de faixa que chegou de um lugar inesperado, com uma proposta fora do padrão, e conquistou o mundo sem pedir licença.
FICHA TÉCNICA
Música: “Funkytown”
Artista: Lipps Inc.
Ano de Lançamento: 1980 (março)
Álbum: Mouth to Mouth (1979)
Gravadora: Casablanca Records
Desempenho: #1 no Billboard Hot 100 (4 semanas) · #1 em 28 países · Mais de 20 milhões de cópias vendidas mundialmente
Composição: Steven Greenberg
Produção: Steven Greenberg
Vocal: Cynthia Johnson
Curadoria Eu Vivo no Repeat: Para ter essa faixa do jeito que ela merece — e revisitar o álbum completo que mudou a pista de dança em 1980 — procure o CD de Mouth to Mouth, do Lipps Inc. nas plataformas de catálogo da Amazon. Um disco que envelheceu muito melhor do que qualquer obituário do disco escrito naquela época.

