Em 4 de novembro de 1991, a Epic Records lançou “Black or White” como primeiro single de Dangerous, o álbum novo de Michael Jackson. O comunicado oficial da gravadora resumia a faixa como “uma canção de dança de rock and roll sobre harmonia racial”. Nenhuma palavra sobre Rodney King, o motorista negro espancado por policiais de Los Angeles num vídeo que tinha chocado os Estados Unidos oito meses antes. A coincidência de datas era grande demais pra passar batida.
Jackson nunca citou o caso em entrevistas na época do lançamento. A letra fala em termos gerais sobre não importar a cor da pele e sobre não ter medo de grupos como a Ku Klux Klan. Mas quem ouvia rádio em 1991 sabia exatamente de que clima o país vinha.
Uma parceria que levou 18 meses pra nascer
A música nasceu em 1989, quando Jackson contratou o produtor Bill Bottrell pra criar um som novo, diferente do trabalho anterior com Quincy Jones. Michael Jackson cantarolou o riff principal pra Bottrell no estúdio Westlake Audio, em West Hollywood. Bottrell interpretou a melodia na guitarra e passou os 18 meses seguintes lapidando a faixa.
Faltava um verso de rap. Bottrell tentou emplacar LL Cool J e Heavy D pro trecho, mas nenhum dos dois topou. Depois de meses procurando alguém, ele decidiu gravar o verso com a própria voz. Jackson ouviu a demo e insistiu em usar aquela versão no disco final, mesmo com Bottrell pedindo um “rapper de verdade” no lugar.
A maior estreia da história da MTV até então
O clipe estreou simultaneamente em 69 países, em 14 de novembro de 1991, direto pra uma audiência de 500 milhões de pessoas — a maior plateia que um videoclipe já tinha reunido até aquele momento. Passou ao mesmo tempo na MTV, na BET, na VH1, na Fox e no programa Top of the Pops, da BBC.
John Landis, o mesmo diretor de “Thriller”, assinou a direção. O elenco reuniu Macaulay Culkin, o grupo infantil Another Bad Creation, a atriz Tess Harper e o ator George Wendt. A coreografia saiu de uma parceria entre Jackson e Vincent Paterson.
A cena que ninguém esperava ver na TV
Os primeiros minutos do clipe mostravam Jackson dançando ao lado de grupos culturais diferentes — guerreiros zulus, dançarinos tailandeses, indígenas norte-americanos. Mas os últimos quatro minutos da versão original mudaram o tom. Uma pantera negra se transformava em Jackson, que destruía janelas de carro, quebrava vidros e arrancava a própria camisa num acesso de fúria.
A cena incluía Jackson segurando a virilha e fechando o zíper da calça. A revista Entertainment Weekly publicou uma matéria com o título “O Pesadelo em Vídeo de Michael Jackson”. Os críticos Siskel e Ebert, que não costumavam analisar clipes musicais, dedicaram um programa inteiro só a essa cena.
Jackson pediu desculpas em comunicado e ordenou o corte da cena das exibições seguintes. Dois anos depois, lançou uma versão alterada digitalmente: as mesmas janelas quebradas agora tinham pichações racistas, dando um motivo mais claro pra fúria do personagem.
“Black or White” chegou ao número um da Billboard Hot 100 em 7 de dezembro de 1991, a subida mais rápida ao topo desde “Get Back”, dos Beatles, em 1969. Ficou lá por sete semanas e tornou Jackson o primeiro artista com números um nas paradas americanas em três décadas seguidas — anos 70, 80 e 90. A música ainda liderou paradas de mais de 20 países e fechou 1992 como o single mais vendido do mundo.
O riff de guitarra que abre a música é atribuído erroneamente a Slash, do Guns N’ Roses, até hoje. Quem tocou a parte no estúdio foi o próprio Bottrell. Slash entrou só na cena que precede a faixa no álbum — e tocou o riff ao vivo, ao lado de Jackson, no especial de 10 anos da MTV em 1991, quando destruiu a própria guitarra contra um carro cheio de fogos de artifício no palco.
Ficha Técnica
Música: “Black or White”
Artista: Michael Jackson
Ano de lançamento: 1991
Álbum: Dangerous
Desempenho (Chart): #1 na Billboard Hot 100 por sete semanas (dezembro de 1991); #1 em mais de 20 países; triplo platina pela RIAA
Composição: Michael Jackson e Bill Bottrell (não creditado)
Pra quem quer ouvir o álbum inteiro, Dangerous, em CD, reúne “Black or White” e o resto da fase mais pop-rock da carreira de Jackson. Quem quiser entender outro momento em que a gravadora escondeu bastidores de Jackson pode ler também sobre “Man in the Mirror”, quando Quincy Jones teve que insistir pra ele gravar uma letra que não tinha escrito.


