Tem música de amor que fala de flores, de estrelas, de para sempre. “There Is a Light That Never Goes Out”, do The Smiths, fala de um ônibus de dois andares. E de morrer atropelado ao lado da pessoa amada. Então como uma letra dessas virou a música mais querida dos fãs do grupo?
Essa é a declaração de amor mais estranha dos anos 80. Mas o estranho não está só no ônibus. Está em tudo que o narrador não tem coragem de dizer.
E tudo começa num carro, numa noite qualquer
A música está em The Queen Is Dead, terceiro disco da banda, lançado em 1986. A letra é de Morrissey, e a música é de Johnny Marr. Os dois começaram a trabalhar nela no fim de 1985, num estúdio em Londres. Marr conta que, quando tocaram pela primeira vez, achou que era a melhor música que já tinha ouvido.
Na letra, o narrador sai de noite com alguém e pede pra não voltar pra casa. Segundo ele, aquela casa nem é mais dele, e ali ele já não é bem-vindo. Ele quer ir pra qualquer lugar, desde que seja junto dessa pessoa. É o pedido de quem se sente sozinho e finalmente encontrou companhia.
Mas aí entra o ônibus de dois andares
É aqui que a letra vira o que ninguém esquece. O narrador imagina um ônibus de dois andares batendo no carro dos dois. Em vez de medo, ele diz que morrer ao lado dessa pessoa seria um jeito divino de partir. E, pra não deixar dúvida, repete a ideia com um caminhão de dez toneladas.
Parece exagero, e é. Mas o exagero esconde outra coisa. Num túnel escuro, ele pensa que a chance de dizer o que sente finalmente chegou. Só que um medo estranho trava tudo, e ele não consegue pedir nada. A declaração de amor mais famosa dos Smiths é, no fundo, sobre não conseguir se declarar.
Aperta o play e presta atenção no trecho do ônibus: “There Is a Light That Never Goes Out”, do The Smiths.
E a luz do título quase tinha dono
Nem sempre foi assim. Segundo Simon Goddard, autor de um livro sobre a história das músicas dos Smiths, uma versão anterior da letra era menos ambígua. Ela terminava dizendo que a luz que nunca se apaga estava nos olhos da pessoa amada. Na versão final, essa explicação saiu. A luz ficou no título, mas sem dono.
É um detalhe que muda tudo, porque, sem dizer de quem é a luz, a música serve pra qualquer pessoa apaixonada. Talvez por isso tanta gente se veja nela até hoje.
Só que a banda acabou antes de lançar a música como single
Com tudo isso, o normal seria a música virar single logo em 1986. O dono da gravadora da banda, inclusive, queria isso. Mas Johnny Marr insistiu em outra faixa do disco, “Bigmouth Strikes Again”. “There Is a Light That Never Goes Out” ficou só no álbum.
O The Smiths acabou em 1987, quando Marr saiu da banda. A música só ganhou lançamento como single em outubro de 1992, pra divulgar a coletânea …Best II. Chegou ao 25º lugar da parada britânica, cinco anos depois do fim do grupo. Hoje, é a música mais ouvida da banda nas plataformas de streaming.
Leia também: a história de “This Is the Day”, do The The. Johnny Marr quase se juntou a Matt Johnson, o líder do The The, antes de formar os Smiths, e tocou no The The de 1988 a 1994.
E a frase sobre morrer junto ganhou outra vida em 2009. No filme “(500) Dias com Ela”, a personagem de Zooey Deschanel ouve a música vazando do fone do protagonista, num elevador. Ela canta justamente o trecho sobre morrer ao lado de alguém, e é ali que ele se apaixona por ela. A declaração que o narrador nunca conseguiu fazer virou, no cinema, o começo de uma paixão.
Nota do Repeat: ele imaginou um ônibus de dois andares porque não teve coragem de dizer três palavras. A gente não tem esse problema: essa não sai do repeat.
Ficha Técnica
Música: There Is a Light That Never Goes Out
Artista: The Smiths
Ano de lançamento: 1986 (no álbum); single em 1992
Álbum: The Queen Is Dead
Desempenho: 25º lugar no Reino Unido (single de 1992)
Composição: Morrissey e Johnny Marr


