“I Still Believe”, de Brenda K. Starr: era Mariah Carey cantando nos bastidores

Uma garota de 17 anos fazia as vozes de apoio. Ela virou Mariah Carey.

Em 1987, uma cantora nova-iorquina de 20 anos chamada Brenda K. Starr entrou nos estúdios da MCA Records em Nova York pra gravar o segundo álbum da carreira. Uma das canções escolhidas foi “I Still Believe” — a balada que viraria o maior sucesso da carreira dela, o único top 20 no Billboard Hot 100, e a canção que definiria pra sempre o nome de Brenda K. Starr no rádio pop americano. Havia um detalhe curioso naquela gravação: no coro, cantando junto com a Brenda numa cabine separada do estúdio, estava uma garota magrinha de 17 anos, sem contrato, sem carreira, e sem dinheiro nem pro metrô. O nome dela era Mariah Carey. Mas em 1987, a atenção era toda da Brenda.

O clipe original de “I Still Believe”, com Brenda K. Starr em 1988 no auge do R&B pop americano

Quem era Brenda K. Starr

Brenda nasceu Brenda Joy Kaplan em 14 de outubro de 1966. O pai, Harvey Kaplan, era um tecladista americano que tinha tocado em uma banda de rock dos anos 60 chamada The Spiral Starecase. A mãe era porto-riquenha católica. Brenda cresceu em Nova York, entre duas culturas, cantando desde cedo.

O primeiro contato dela com a indústria musical foi um encontro casual com o cantor Harry Belafonte no começo dos anos 80. Belafonte estava produzindo um filme sobre a cena hip-hop de Nova York chamado Beat Street (1984) e convidou Brenda pra fazer uma pequena participação: ela aparece como uma cantora num teste de microfone aberto. A cena foi curta, mas chamou atenção suficiente pra ela conseguir um contrato com a Mirage Records.

O primeiro álbum saiu em 1985 e passou batido. A canção principal, “Pickin’ Up The Pieces”, chegou ao top 10 da Billboard Dance Club Play, mas não emplacou nas paradas pop. Em 1987, Brenda mudou de gravadora — assinou com a MCA Records e começou a preparar o segundo disco. Precisava de um hit. Encontrou “I Still Believe”.

Como a canção foi feita

“I Still Believe” foi escrita por dois compositores externos. A letra é de Antonina Armato, uma jovem letrista americana no início da carreira. Anos depois, Armato viria a escrever para Jonas Brothers, Selena Gomez e Miley Cyrus. Mas em 1987, ela ainda era desconhecida — e escreveu essa canção sobre o próprio primeiro amor. O namorado adolescente dela tinha proposto casamento. Armato achou cedo demais. Ele deu um ultimato: casa ou termina. Ela escolheu terminar. Escreveu a canção sobre a dor daquele momento. Contou depois ao Billboard: “Escrevi sobre meu primeiro amor. Senti cada palavra.”

A música foi composta pelo italiano Giuseppe Cantarelli, parceiro de Armato em várias outras canções da mesma era. A produção do disco ficou nas mãos do brasileiro Eumir Deodato — o pianista carioca que já tinha trabalhado com Astrud Gilberto, Kool & The Gang e Björk.

Foi durante essas sessões que Brenda contratou uma cantora desconhecida pra fazer as vozes de apoio: uma garota chamada Mariah Carey. Mariah tinha acabado de sair do ensino médio em Long Island. Não tinha contrato com ninguém. Foi indicada pra Brenda por um contato musical. Cantou o coro de “I Still Believe” numa cabine separada, sem receber crédito nos encartes. Era só uma cantora de apoio começando a carreira.

Se você gosta desse tipo de balada dos anos 80 sobre esperar por alguém que talvez volte, vale ouvir também “It’s Gonna Take a Miracle”, da cantora americana Deniece Williams, gravada no começo da mesma década — outra canção do mesmo território de balada feminina, sobre continuar acreditando num amor mesmo depois da separação.

O sucesso comercial

“I Still Believe” foi lançada como segundo single do álbum autointitulado Brenda K. Starr em março de 1988. Chegou ao número 13 da Billboard Hot 100 em 2 de julho daquele ano. Ficou 26 semanas no chart. Foi o único top 20 da carreira da Brenda K. Starr nos Estados Unidos. O álbum atingiu o número 58 da Billboard 200.

Brenda também gravou uma versão em espanhol, chamada “Yo Creo En Ti”, lançada como single no mercado latino. Essa versão ampliou o alcance dela em toda a América Latina, incluindo o Brasil, onde a balada tocou muito nas rádios adult contemporary do fim dos anos 80.

O clipe da canção mostra Brenda cantando dentro de um galpão vazio, alternando com cenas dela caminhando por Nova York enquanto passa por vários casais apaixonados. É simples, direto, típico da estética dos clipes pop do fim da década.

O que a letra realmente diz

A letra é sobre alguém que ainda acredita num amor que terminou. A pessoa reconhece que o relacionamento acabou — mas insiste que, um dia, os dois vão se encontrar de novo. Não é uma canção de reconciliação. É uma canção de esperança teimosa. Alguém que segura a chama de algo que já apagou, esperando que reacenda.

O verso central diz: “I still believe someday you and me will find ourselves in love again” — eu ainda acredito que, um dia, você e eu vamos nos encontrar apaixonados de novo. É esse tipo de teimosia romântica que fez a canção durar. Cada geração encontra alguém que se identifica com aquele sentimento de não conseguir soltar.

O tributo, dez anos depois

Em 1998, Mariah Carey preparava a coletânea de sucessos chamada #1’s e precisava de canções novas pra incluir no disco. Escolheu regravar “I Still Believe” — a mesma canção onde ela tinha feito as vozes de apoio 11 anos antes. Fez como tributo à Brenda. Contou pra Rosie O’Donnell em entrevista de 1999: “Eu era uma garotinha magrela sem dinheiro que ela pegou embaixo do braço. Ela foi muito boa comigo”.

A versão da Mariah chegou ao número 4 da Billboard Hot 100 em 1999. Recebeu certificado de platina. Chegou mais alto que a original nas paradas americanas.

O que aconteceu com Brenda K. Starr

Depois do sucesso de “I Still Believe”, Brenda continuou lançando singles pop no fim dos anos 80 e começo dos 90. Nenhum chegou tão alto quanto o hit de 1988. No fim dos anos 90, ela mudou o rumo da carreira: passou a cantar quase exclusivamente em espanhol e migrou para a salsa. A transformação deu certo. Hoje, Brenda K. Starr é uma das principais cantoras de salsa dos Estados Unidos, com vários álbuns lançados no mercado latino e presença constante nas paradas de música tropical.

Em 2016, a filha dela, Gianna Isabella, cantou “I Still Believe” no American Idol e chegou ao top 10 da temporada. Foi a passagem da canção pra próxima geração dentro da própria família Kaplan.

Ficha Técnica

Música: “I Still Believe”
Artista: Brenda K. Starr
Ano de lançamento: 1987 (single em março de 1988)
Álbum: Brenda K. Starr
Desempenho (Chart): número 13 na Billboard Hot 100 (EUA), 26 semanas no chart. Único top 20 da carreira da Brenda K. Starr nos EUA. Álbum Brenda K. Starr: número 58 na Billboard 200. Versão da Mariah Carey em 1999 chegou ao número 4 na Billboard e certificação platina pela RIAA.
Composição: Antonina Armato e Giuseppe Cantarelli

Se essa fase mais romântica do R&B pop dos anos 80 mexer com uma memória sua, ter o Brenda K. Starr em CD (Amazon) é uma forma de guardar em casa o álbum que trouxe a canção mais lembrada da carreira dela — e que continua tocando em rádios de saudade Brasil afora.

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