“What a Fool Believes”, do Doobie Brothers: a canção que soava como ‘música de circo’

Michael McDonald quase largou a canção depois do veredicto em casa. Ela virou hit mundial e ganhou dois Grammys.

Antes de ganhar dois Grammys, virar hit mundial e entrar no Grammy Hall of Fame, “What a Fool Believes” quase morreu numa sala de estar em Los Angeles. Michael McDonald, vocalista do Doobie Brothers, tinha um esqueleto de piano e um pedaço da primeira estrofe. Levou pra dentro de casa. Tocou pra irmã, Maureen. A resposta chegou rápido: “Isso soa como música de circo”.

McDonald pensou em desistir. A frase era brutal, mas fazia sentido: a linha de piano, tocada sozinha, tinha um balanço meio pomposo, meio infantil. Faltava tudo o que ele ainda não tinha inventado — arranjo, refrão, bridge, contexto. Ficou meses evitando voltar à canção.

O clipe original de “What a Fool Believes”, com Michael McDonald no auge do soft rock americano — assista antes de continuar a leitura.

O produtor não deixava McDonald esquecer

Quem não desistia era Ted Templeman, produtor do Doobie Brothers. Toda vez que McDonald tocava a base pra ele em estúdio, Templeman insistia na mesma frase: “Termina essa canção. Eu tô te dizendo, isso é um hit”.

McDonald resistia. A parte central da canção — a virada emocional que a música pedia — não vinha. Foi aí que o baixista da banda, Tiran Porter, sugeriu que ele convidasse Kenny Loggins pra uma sessão de composição. Os dois nunca tinham se encontrado. Loggins tinha acabado de sair da dupla Loggins & Messina e queria colaborar.

O encontro aconteceu na casa do McDonald em 1978. Enquanto Loggins chegava, McDonald estava tocando o esqueleto da canção no piano. Loggins ouviu de fora, montou a bridge que faltava de cabeça, e mostrou tudo pronto assim que entrou. Terminaram a letra pelo telefone naquela mesma noite.

Templeman quase jogou a gravação no lixo

A gravação também não foi tranquila. Templeman ficou insatisfeito com o resultado final. Os takes não fechavam, o arranjo não travava. Ele tomou uma decisão radical: cortou a fita master em pedaços e montou uma versão utilizável emendando os trechos aproveitáveis.

A banda ficou horrorizada. Templeman, mesmo assim, achou que estava ruim demais para lançar. Levou pra Warner Bros. e sugeriu descartar. Segundo o próprio produtor: “Eles me olharam e falaram: ‘Você tá louco? Isso é ótimo.'”

Kenny Loggins gravou primeiro. Ninguém ligou

Antes do Doobie Brothers, Kenny Loggins colocou a canção no seu segundo álbum solo, Nightwatch, em julho de 1978. A versão dele tinha arranjo de piano jazz do produtor Bob James. Não saiu como single. Passou completamente batida no rádio.

Cinco meses depois, em dezembro de 1978, o Doobie Brothers lançou a versão do álbum Minute by Minute. Em janeiro de 1979, virou single. E aí a canção fez o percurso completo: estreou no número 73 da Billboard Hot 100 em 20 de janeiro, subiu semana a semana, e chegou ao número 1 em 14 de abril. Ficou uma semana no topo.

Nos Grammys de 1980, a canção venceu duas categorias principais: Song of the Year e Record of the Year. Foi um dos poucos hits número 1 daquele ano que não eram disco music — em plena onda pós-Saturday Night Fever, o Doobie Brothers driblou todo o resto da parada.

Se você gosta desse tipo de canção com voz masculina emotiva e teclado dominando o arranjo, vale ouvir também “One on One”, do Hall & Oates, gravada quatro anos depois — outra faixa da mesma cena soft rock do começo dos anos 80, com estrutura parecida e o mesmo estilo de refrão que grudava na primeira audição.

O que a letra realmente conta

A letra é sobre um homem que reencontra uma antiga paquera num restaurante. Os dois tiveram alguma coisa há muitos anos. Para ele, foi a coisa mais importante da vida. Para ela, foi um episódio passageiro, já esquecido.

A conversa acontece toda entre linhas. Ela é educada, mantém a compostura. Ele não entende. Continua achando que os dois têm uma história em comum, uma chance de recomeço. Quando ela se levanta para ir embora, ele não pega o recado.

Michael McDonald descreveu o personagem em uma frase, em entrevista ao The Guardian: “Um cara que se apaixonou por uma memória que nem existiu direito”.

É esse o “fool” do título. Um bobo que acredita numa história que ele mesmo inventou.

Em 2024, “What a Fool Believes” foi incluída no Grammy Hall of Fame. Michael McDonald lançou uma autobiografia com o mesmo nome no mesmo ano. A irmã Maureen, aos 71 anos, participou de uma entrevista com o irmão e ainda ri quando lembra do veredicto de “música de circo”.

Ficha Técnica

Música: “What a Fool Believes”
Artista: The Doobie Brothers
Ano de lançamento: 1978 (single em janeiro de 1979)
Álbum: Minute by Minute
Desempenho (Chart): número 1 na Billboard Hot 100 (14 de abril de 1979). Grammy 1980 de Song of the Year e Record of the Year. Grammy Hall of Fame em 2024. Álbum Minute by Minute: número 1 na Billboard 200 — o único número 1 de álbum da carreira do Doobie Brothers.
Composição: Michael McDonald e Kenny Loggins

Se essa fase do soft rock americano mexe com sua memória, ter o Best of the Doobie Brothers em vinil (Amazon) é uma forma de guardar em casa a música que ganhou dois Grammys para a banda.

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