Os bastidores de “Hazard”, de Richard Marx: a canção que ele só gravou para provar que a esposa estava errada

Ele achou que era a coisa mais estúpida que já tinha escrito. Cynthia Rhodes ouviu o demo em casa e disse "vai ser um hit". Foi.

Em algum momento entre o fim de 1990 e o começo de 1991, Richard Marx terminou de escrever uma canção nova em seu estúdio caseiro. Era diferente de tudo que ele tinha feito até ali — em vez de uma balada romântica no estilo de “Right Here Waiting” ou “Hold On to the Nights”, era um mistério de assassinato. Um homem apaixonado por uma mulher chamada Mary. Mary desaparece à beira de um rio. O homem, sempre desprezado pela cidade pequena onde vive, é acusado. Ele nega, mas o veredicto fica no ar até o fim da canção. Marx gravou um demo caseiro em fita cassete só para tirar a ideia da cabeça. Achou o resultado tão ruim que quase não gravou de verdade. “A coisa mais estúpida que eu já tinha escrito”, disse depois. “Parecia um episódio muito ruim de Twin Peaks.”

Foi a esposa dele, a atriz Cynthia Rhodes — a mesma que fez a Penny em Dirty Dancing —, quem passou pelo estúdio de casa naquele dia, ouviu o demo até o fim e falou, sem hesitar: “isso vai ser um hit”. Marx discordou completamente. Discutiu com ela. E então tomou a decisão que mudaria a carreira dele: gravou a canção de verdade para incluir no álbum Rush Street (1991), apenas para provar que a esposa estava errada. Mas ela estava certa.

O clipe original de “Hazard”, em preto e branco, com Robert Conrad como o xerife — assista antes de continuar a leitura.

Como Hazard, Nebraska virou o nome da cidade

Antes de tudo isso, Marx tinha um problema: a canção estava praticamente pronta, mas faltavam duas sílabas — o nome da cidade onde a história acontece. A frase “and leave this old ___ town” precisava de duas sílabas que soassem certo. Ele tinha decidido que ficaria em Nebraska, porque a palavra “Nebraska” cantava bem no refrão, mas não sabia qual cidade escolher.

A internet não existia. Marx pegou o telefone e ligou para a Câmara de Comércio de Nebraska. Pediu, gentilmente, que enviassem para o número de fax dele em Los Angeles a lista completa de todas as cidades do estado. Uma mulher muito simpática do outro lado da linha aceitou. O fax começou a cuspir páginas — 16 ou 17, cheias de nomes. Marx jogou as folhas para cima como quem embaralha cartas e escolheu uma no ar. Enfiou o dedo em cima da página, aleatoriamente. Foi parar em “Ogallala”. Sílabas demais. Tentou outra vez. O dedo caiu em Hazard — uma cidade real de 78 habitantes no condado de Sherman. Duas sílabas. E, melhor ainda, “hazard” significa “perigo” ou “risco” em inglês. O duplo sentido colou. Estava escolhido.

Um dos maiores hits da carreira

A canção foi lançada como segundo single de Rush Street em 28 de janeiro de 1992 nos Estados Unidos. Marx tinha certeza de que ninguém prestaria atenção — pediu para colocarem como faixa 5 do álbum, achando que ficaria escondida. Em abril daquele ano, “Hazard” chegou ao número 9 na Billboard Hot 100. Pouco depois, foi ao topo da parada Adult Contemporary — o terceiro número 1 do Marx naquela parada. Na Austrália, chegou ao número 1. No Reino Unido, no Canadá e na Irlanda, top 3. Na Nova Zelândia, Noruega e Suécia, top 10. Foi um sucesso internacional maior do que ele jamais tinha imaginado — para uma canção que ele chamava de “estúpida” nas conversas de bastidor.

O clipe, dirigido por Michael Haussman em preto e branco, virou um pequeno filme de mistério com Robert Conrad — ator famoso da TV americana dos anos 60 e 70 — interpretando o xerife da cidade. A atriz Renee Parent fez o papel de Mary. O clipe apresenta quatro teorias possíveis para a morte da mulher: suicídio, culpa do narrador, culpa do xerife obcecado ou culpa de um amante rival. Nunca revela a resposta.

Se você gosta desse tipo de balada dos anos 80 e começo dos 90 com voz masculina forte e clima suspenso, vale ouvir também “The Next Time I Fall”, que Peter Cetera gravou com Amy Grant em 1986 — outra canção do mesmo universo soft rock adult contemporary, e Richard Marx era próximo desse círculo: chegou a co-escrever canções para o Chicago, banda original de Cetera.

Marx nunca revelou o assassino

Ao longo de 33 anos, jornalistas e fãs seguem tentando arrancar de Richard Marx a resposta que ele nunca dá: quem matou Mary? Em entrevistas, Marx sempre despista com bom humor. Já disse, entre risadas, que ainda é procurado pela polícia em Nebraska. Já disse que escreveu a canção como mistério sem final — nem ele mesmo sabe quem foi o assassino. A ambiguidade é parte da graça da canção. É por isso que ela continua sendo tocada em rádios de nostalgia até hoje e ainda gera discussão nos comentários de qualquer clipe no YouTube.

A cidade real de Hazard, Nebraska, agradeceu o presente inesperado. Em 1992, Marx apareceu por lá depois de um show na cidade vizinha de North Platte. Ficou só 30 minutos, tirou foto no correio local, comprou algumas camisetas “Hazard Daze” e foi embora. No ano seguinte, foi convidado a ser Grande Marechal do desfile de 4 de julho do condado de Sherman. Aceitou.

Cynthia Rhodes e Richard Marx se divorciaram em 2014, depois de 25 anos casados. Hoje, quando conta essa história no palco, ele já diz “minha então esposa” — mas nunca deixa de lembrar que ela estava certa. A intuição dela sobre “Hazard” foi mais afiada que a dele.

Ficha Técnica

Música: “Hazard”
Artista: Richard Marx
Ano de lançamento: 1991 (single em 28 de janeiro de 1992 nos EUA)
Álbum: Rush Street
Desempenho (Chart): número 9 na Billboard Hot 100 (EUA), número 1 na parada Adult Contemporary (EUA), número 1 na Austrália, top 3 no Reino Unido, Canadá e Irlanda, top 10 na Nova Zelândia, Noruega e Suécia. Composição: Richard Marx

Se essa canção mexer com uma memória do começo dos anos 90, ter o Rush Street em CD (Amazon) por perto é uma forma de reviver aquele momento em que a fita rodava na sala e a história do Marx te prendia até o último verso, esperando saber quem tinha sido. (marcar como sponsored no Yoast)

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