A música mais famosa do Alphaville fala sobre vício em heroína e ninguém entendeu

Marian Gold escreveu sobre Berlim, usou um nome que não era dele e chegou ao número 1 em seis países.

Em 1979, Marian Gold vivia em Berlim Ocidental e frequentava os arredores da estação de trem Zoo — um ponto conhecido na época como centro do submundo da cidade, com uma cena de drogas que tinha sido documentada no livro Nós, Crianças da Estação Zoo, publicado naquele mesmo ano. Gold observava dois amigos tentando sair do vício em heroína. Escreveu uma música sobre eles. Cinco anos depois, essa música chegou ao número 1 em seis países e ninguém entendeu do que ela realmente falava.

“Big in Japan” não é sobre o Japão. Não é sobre fama. Não é sobre uma banda que faz sucesso no exterior quando já não vende mais em casa. Gold explicou em 1998 ao portal Re.flexion: “A frase tem um significado específico. Significa que se você é um completo perdedor, você diz para as pessoas: ‘Não sou um perdedor porque no Japão sou muito grande.’ É a mentira do perdedor — e encaixou perfeitamente na história desses viciados, de uma forma muito trágica.” A música fala de um casal tentando largar a heroína e imaginando como seria a vida sem ela. O Japão é a fantasia de um mundo livre, longe de tudo.

O nome que Gold usou sem avisar e a ironia que veio depois

O título “Big in Japan” não foi inventado por Gold. Ele ouviu o nome de uma banda britânica de Liverpool chamada Big in Japan, um grupo punk que existiu entre 1977 e 1978 e nunca fez sucesso fora do circuito underground inglês. Gold achou a frase perfeita para o que queria dizer e a usou.

O que ninguém viu na época é que o vocalista daquela banda era Holly Johnson. O mesmo Holly Johnson que, alguns anos depois, formou o Frankie Goes to Hollywood. Em 1984, quando “Big in Japan” do Alphaville entrou nas paradas alemãs e foi escalando semana a semana, quem estava no número 1 bloqueando a passagem era “Relax”, do Frankie Goes to Hollywood. Gold ficou semanas tentando ultrapassar a música do homem de quem tinha tirado o nome, sem que quase ninguém percebesse a coincidência. Quando finalmente chegou ao número 1 na Alemanha, disse que foi “muito bizarro”.

A música que quase não entrou no álbum

A música sobre heroína em Berlim que todo mundo ouviu como um hino sobre fama e chegou ao número 1 em seis países.

Gold admitiu que hesitou em incluir “Big in Japan” no álbum de estreia Forever Young. “Não tínhamos certeza se deveríamos colocá-la no álbum, porque é um pouco autobiográfica — reflete meu tempo em Berlim Ocidental no final dos anos 70, com a cena de drogas ao redor da estação e do zoológico, e todas as coisas underground.” A música tinha sido escrita em 1979 e ficou guardada por cinco anos antes de ser gravada e lançada.

O single saiu em 1984 e foi o primeiro lançamento da banda. O álbum Forever Young ainda nem tinha sido gravado por completo quando “Big in Japan” chegou às lojas. A música chegou ao número 1 na Alemanha Ocidental, Suíça, Suécia, Grécia, Turquia e Venezuela, ao número 1 no Billboard Dance Chart nos Estados Unidos e ao número 8 no Reino Unido, o único Top 10 da carreira do Alphaville em terras britânicas. Recebeu certificação de ouro na Alemanha e de prata no Reino Unido.

Gold disse que a única pessoa que entendeu o significado da música corretamente, além do coautor Bernhard Lloyd, foi o então editor da banda, Andy Budde. Todo mundo ouvia “Big in Japan” como uma música sobre ambição, sobre querer ser famoso, sobre ser grande em outro lugar quando você é ignorado em casa. Era exatamente a ilusão que Gold queria capturar, porque era exatamente isso que seus personagens faziam: se convenciam de que em algum lugar distante a vida seria diferente, que o amor seria possível sem a droga, que tudo poderia ser real. O Japão estava longe o suficiente para ser qualquer coisa.

Quem curte esse mesmo universo do synth-pop alemão dos anos 80 com letras que escondem mais do que mostram vai reconhecer o mesmo padrão em “Major Tom (Coming Home)”, de Peter Schilling, outra música da mesma época e da mesma cena que usa uma metáfora de fuga para falar de algo completamente diferente do que parece.

Gold escreveu a música sobre dois amigos reais. Não disse o que aconteceu com eles. Mas guardou a música por cinco anos antes de deixar o mundo ouvi-la.

Ficha Técnica

Música: Big in Japan
Artista: Alphaville
Ano de lançamento: 1984
Álbum: Forever Young
Desempenho (Chart): #1 Alemanha Ocidental, Suíça, Suécia, Grécia, Turquia e Venezuela; #1 Billboard Hot Dance Club Play (EUA); #8 UK Singles Chart
Composição: Marian Gold, Bernhard Lloyd, Frank Mertens

Se Forever Young fez parte da sua adolescência nos anos 80, o CD Forever Young – Alphaville ainda é a forma mais direta de ouvir “Big in Japan” e “Forever Young” no mesmo lugar e entender de onde esse som veio. (Amazon)

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