Poucas canções resistem ao tempo como “Bohemian Rhapsody”. Lançada em 31 de outubro de 1975 pela Queen, a faixa não tinha refrão, durava quase seis minutos e misturava balada, ópera e rock pesado na mesma música — algo que nenhuma gravadora aceitaria hoje sem reclamar. Mesmo assim, ela virou a primeira música a chegar duas vezes ao topo da parada britânica com a mesma versão, e até hoje está entre as mais ouvidas do mundo.
Quem escreveu a música foi Freddie Mercury, sozinho. Ele começou a criar pedaços dela ainda no fim dos anos 1960, antes mesmo de a banda existir, tocando trechos ao piano para os amigos. Um desses pedaços, que ele chamava de “the cowboy song”, já tinha a frase “mama, just killed a man” — a mesma que décadas depois abriria a versão final. Quando mostrou a ideia pronta para o produtor Roy Thomas Baker, Mercury tocou a parte da balada no piano, parou de repente e avisou: “e é aqui que entra a parte de ópera”. Os dois saíram para jantar logo depois, como se não tivesse acabado de soltar uma bomba.
Assista ao clipe que ajudou a inventar o videoclipe moderno como conhecemos hoje:
Como a música nasceu dentro de cinco estúdios diferentes
As gravações começaram em 24 de agosto de 1975, no Rockfield Studio 1, no País de Gales. A parte de ópera tinha tantas camadas de voz gravadas em cima umas das outras que a banda precisou passar por mais quatro estúdios — Roundhouse, Sarm Studios, Scorpio Sound e Wessex Sound Studios — até fechar a faixa. O piano usado por Mercury, aliás, era o mesmo que Paul McCartney tocou para gravar “Hey Jude” e que Rick Wakeman usou no álbum Hunky Dory, de David Bowie.
A gravadora EMI e até amigos próximos, como Elton John, achavam que uma música tão longa e tão diferente do normal nunca tocaria no rádio. Quem resolveu isso foi o DJ Kenny Everett, da Capital Radio: sem o disco ainda estar à venda, ele tocou pedaços da fita no programa dele 14 vezes em dois dias, só para deixar todo mundo curioso. Deu certo — as pessoas foram correndo atrás da música nas lojas antes mesmo de ela ser lançada oficialmente.
A faixa saiu no quarto álbum da banda, A Night at the Opera, entrou na parada britânica na posição 47 e chegou ao topo em só quatro semanas, onde ficou por nove semanas seguidas. Foi a primeira música número 1 da Queen no Reino Unido e o Christmas number one de 1975. Nos Estados Unidos, chegou à 9ª posição na Billboard Hot 100 em 1976. Em 1991, depois da morte de Mercury, a música foi relançada e voltou ao topo britânico por mais cinco semanas — virando, de novo, o Christmas number one, coisa que nenhuma outra música conseguiu fazer duas vezes. Em 1992, graças à cena do carro no filme Wayne’s World, ela voltou à Hot 100 nos Estados Unidos e bateu seu recorde por lá, chegando à 2ª posição.
O que significa a letra de Bohemian Rhapsody
Mercury nunca contou o que a letra queria dizer enquanto estava vivo. A frase que ele mais repetia sobre o assunto era simples: “acho que as pessoas deveriam só ouvir, pensar sobre isso, e tirar suas próprias conclusões.” Brian May seguiu o mesmo caminho por anos, dizendo apenas que sabia que tinha coisa pessoal do amigo escondida ali, sem contar o que era.
Quem quebrou esse silêncio foi Jim Hutton, parceiro de Mercury nos últimos anos de vida dele, em conversa com a biógrafa Lesley-Ann Jones. Segundo Hutton, a música era a confissão do próprio Mercury — sobre como a vida dele poderia ter sido diferente, e mais feliz, se ele tivesse podido ser ele mesmo desde o começo. A leitura mais aceita hoje liga o verso de abertura, em que o personagem conta para a mãe que “matou um homem”, ao fim do noivado de Mercury com Mary Austin — a quem ele chamava carinhosamente de “mama” — e à aceitação da própria sexualidade. O “homem morto” seria essa versão antiga dele mesmo, que ficou para trás.
Na parte de ópera, aparecem nomes como “Scaramouche”, “Galileo” e “Figaro”. Scaramouche é um personagem cômico do teatro italiano antigo, conhecido por ser folgado e escorregadio. Galileo remete ao astrônomo Galileu Galilei, e Figaro é o personagem central da ópera “O Barbeiro de Sevilha”. Juntos, eles dão o clima de um julgamento: o personagem da letra é acusado e zoado ao mesmo tempo, como se estivesse sendo levado a um tribunal por aquilo que tentou esconder.
Se você curte esse tipo de história — alguém escondendo quem realmente é atrás de uma imagem pública —, vale ouvir também “Karma Chameleon”, do Culture Club, em que Boy George canta sobre exatamente isso.
A música segue ganhando capítulos novos: em 2018, o filme biográfico “Bohemian Rhapsody” trouxe a faixa de volta à Hot 100 pela terceira vez, e em 2021 ela recebeu a certificação Diamante da RIAA, por mais de dez milhões de cópias e streams nos Estados Unidos — a única música dos anos 1970 a alcançar essa marca.
Ficha Técnica
Música: “Bohemian Rhapsody”
Artista: Queen
Ano de lançamento: 1975
Álbum: A Night at the Opera
Desempenho (Chart): Nº 1 na UK Singles Chart (9 semanas, 1975/76, e mais 5 semanas em 1991); Nº 9 na Billboard Hot 100 dos EUA (1976), com pico de Nº 2 em 1992
Composição: Freddie Mercury
Reviver “Bohemian Rhapsody” é quase um ritual obrigatório para quem cresceu com o Queen tocando em casa — e ter o álbum A Night at the Opera em vinil é trazer de volta aquele momento exato em que a agulha descia e o quarto inteiro virava um pequeno teatro: Queen – Vinil A Night at the Opera] (Amazon).
Para quem quer ir além da música e entender o homem por trás da voz, a biografia definitiva escrita por Lesley-Ann Jones é leitura obrigatória: Freddie Mercury: a biografia definitiva (Amazon).

