Sharona é uma pessoa real. Não é um nome inventado. Não é um símbolo. Não é uma referência genérica. Em 1978, uma adolescente de 17 anos chamada Sharona Alperin trabalhava como vendedora de uma loja de roupas em Los Angeles quando conheceu o vocalista de uma banda de rock chamada The Knack. Um ano depois, essa mesma banda gravaria uma canção com o nome dela. E ficaria seis semanas no número 1 da Billboard Hot 100. Sharona não sabia que a canção estava sendo escrita sobre ela. Descobriu ao visitar um ensaio no meio do intervalo do trabalho — e ouviu, ao vivo, uma canção com o próprio nome no refrão. Contou depois em entrevista: “Eu acabei de ouvir uma canção com meu nome?”.
Foi assim que “My Sharona” apareceu na vida dela.
Quem era Sharona Alperin em 1978
Sharona tinha 17 anos, era filha de uma família judia de classe média em Los Angeles, e estudava no Fairfax High School. Trabalhava depois da escola numa loja de roupas femininas na West Third Street, no bairro de Beverly Grove. Namorava um garoto da mesma idade, também judeu. Era o último ano do ensino médio.
Uma das amigas mais próximas dela naquela época era uma mulher mais velha chamada Judy Halpert. Judy tinha um emprego perto da loja onde Sharona trabalhava. As duas passaram a se ver com frequência. Judy era namorada de longa data — nove anos juntos — de um músico chamado Doug Fieger, vocalista e um dos guitarristas do The Knack.
Como a banda entrou na vida dela
Um dia, Judy resolveu apresentar Sharona ao namorado. Levou Doug Fieger até a loja de roupas em Beverly Grove pra fazer as apresentações. Fieger tinha 25 anos. Era oito anos mais velho que Sharona. Contou depois no encarte do disco: “Foi como levar uma pancada na cabeça com um taco de beisebol”.
O sentimento era todo de Fieger. Sharona não retribuiu. Continuou namorando o mesmo garoto de sempre. Continuou trabalhando na loja. Mas Fieger foi pra casa e começou a escrever canções sobre a garota que tinha acabado de conhecer.
Não foi só uma canção. Naquele período, ele escreveu ainda “Frustrated”, “She’s So Selfish” e “That’s What The Little Girls Do” — todas sobre Sharona. E aí veio “My Sharona”.
Como a canção foi escrita
Doug Fieger e o outro guitarrista da banda, Berton Averre, sentaram no estúdio caseiro e trabalharam a estrutura da canção em 15 minutos. Averre criou a linha de guitarra do começo — aquela que grudou na cabeça de todo mundo. Fieger encaixou a letra.
Averre era contra usar o nome real da Sharona na canção. Achou que dava exposição demais à garota. Fieger insistiu: “Eu quero que seja uma expressão direta do que sinto por ela”.
Averre cedeu. A gravação foi rápida — a banda entrou no estúdio e gravou em uma tomada só. A mixagem levou 15 minutos.
Nos meses seguintes, o The Knack começou a tocar “My Sharona” nos shows locais de Los Angeles. Sharona ia assistir com o grupo de amigas. O público entendia rapidamente. Ela contou depois: “Ele cantava aquelas canções ao vivo e a maior parte das pessoas no clube olhava pra mim”.
Sharona só começou a namorar Doug Fieger quase um ano depois desse primeiro encontro. Nesse intervalo, Fieger terminou o namoro de nove anos com Judy Halpert. Sharona também terminou com o garoto que namorava. Ficaram juntos por 4 anos. Chegaram a ficar noivos. Nunca se casaram.
Se você gosta desse tipo de canção dos anos 70 e 80 baseada numa pessoa real, vale ouvir também “Bette Davis Eyes”, da cantora americana Kim Carnes, lançada em 1981 — outra canção do mesmo território, escrita por Jackie DeShannon a partir de uma atriz específica de Hollywood, e que também dominou a parada americana por semanas seguidas.
Como “My Sharona” chegou ao topo
O álbum de estreia do The Knack chegou às lojas em junho de 1979 pela Capitol Records, com o nome Get the Knack. A capa do single de “My Sharona” trazia a foto da própria Sharona segurando o álbum nas mãos — a foto foi feita antes ainda dela virar namorada do Fieger.
O resultado nas paradas foi imediato. “My Sharona” entrou na Billboard Hot 100 em 23 de junho de 1979. Chegou ao número 1 em 25 de agosto e ficou seis semanas no topo. Ganhou certificado de ouro em apenas 13 dias após o lançamento — o mais rápido single de estreia da Capitol Records desde “I Want to Hold Your Hand”, dos Beatles, em 1964. Vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo todo. Foi o single mais vendido do ano inteiro de 1979 nos Estados Unidos. O álbum inteiro vendeu 6 milhões só no mercado americano.
O que a letra realmente diz
A letra de “My Sharona” é sobre atração imediata e sem freio por uma garota mais nova. Fieger canta em primeira pessoa como alguém que não consegue parar de pensar nela e que insiste no interesse mesmo sabendo que ela ainda não está disponível. O verso central é: “never gonna stop, give it up, such a dirty mind” — não vou parar, não vou desistir, esse tipo de pensamento sujo.
O próprio Fieger comentou depois, em entrevista ao Washington Post, que a letra foi escrita como se o narrador tivesse 14 anos — uma tentativa de justificar o tom pela idade do personagem, não pela idade real do compositor. A canção causou desconforto na crítica desde 1979. Foi lida como uma canção sobre paixão adolescente, mas também gerou críticas pela diferença de idade entre o adulto de 25 que escreveu e a adolescente de 17 que inspirou. É uma leitura que voltou com força nas últimas décadas.
Como Sharona vive hoje
Sharona Alperin virou uma das corretoras de imóveis mais bem-sucedidas de Los Angeles. É especializada em atender clientes celebridades. Casou com outra pessoa. Tem uma filha. Não fez carreira musical. Mantém contato com o site pessoal dela onde raramente comenta a canção.
Doug Fieger morreu em 14 de fevereiro de 2010, aos 57 anos, por causa de câncer. Sharona ficou próxima dele nos meses finais. Em texto publicado na época da morte, escreveu: “A ligação que a gente compartilhou é algo que eu vou guardar comigo enquanto viver”.
Ficha Técnica
Música: “My Sharona”
Artista: The Knack
Ano de lançamento: 1979
Álbum: Get the Knack
Desempenho (Chart): número 1 na Billboard Hot 100 (EUA), seis semanas seguidas no topo. Número 1 da parada anual de 1979 nos Estados Unidos. Certificada ouro pela RIAA em 13 dias — mais rápido single de estreia da Capitol Records desde os Beatles em 1964. Mais de 10 milhões de cópias vendidas no mundo. Álbum Get the Knack: 6 milhões de cópias vendidas.
Composição: Doug Fieger e Berton Averre
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