A canção que hoje todo mundo conhece na voz de Juice Newton foi recusada, em 1967, por Connie Francis — na época uma das cantoras mais populares dos Estados Unidos. O motivo: a letra falava sobre uma mulher que passa a noite com um homem e, na manhã seguinte, pede que ele vá embora sem promessas nem culpa. Connie achou “atrevida demais” para a imagem dela. Catorze anos depois, essa mesma canção rejeitada por indecente viraria o primeiro videoclipe country a tocar na MTV — no exato dia da estreia do canal, em 1981.
Assista ao videoclipe antes de continuar a leitura.
O autor por trás dessa história é Chip Taylor, nome artístico de James Wesley Voight, irmão do ator Jon Voight e, portanto, tio de Angelina Jolie. Ele já tinha escrito “Wild Thing” para os Troggs em 1965, mas queria algo diferente: uma canção sobre paixão sem os arranjos agressivos que dominavam o rock daquele momento. A inspiração veio dentro do carro, no caminho para Nova York, ouvindo “Ruby Tuesday”, dos Rolling Stones, no rádio. “Eu queria capturar aquele tipo de paixão”, contou Taylor. Voltou pra casa, escreveu a letra e ofereceu a canção a Connie Francis — que devolveu na hora.
De Evie Sands a Juice Newton: 14 anos de tentativas até virar hit
A primeira gravação foi feita em 1967 pela cantora Evie Sands, produzida pelo próprio Taylor. Deu ruim: a gravadora Cameo-Parkway entrou em colapso financeiro poucas semanas depois do lançamento e não promoveu o single. A canção teve outra chance em 1968, com Merrilee Rush — essa sim, um sucesso: chegou ao número 7 na Billboard Hot 100 e rendeu a Rush uma indicação ao Grammy. Nas décadas seguintes, várias artistas gravaram a canção — P.P. Arnold, Dusty Springfield, Melba Montgomery, Olivia Newton-John — mas nenhuma delas conseguiu superar Rush.
A virada aconteceu em 1981, quando Steve Meyer, promotor da Capitol Records, sugeriu a Juice Newton regravar a canção. Newton era country e ninguém apostava que a faixa fosse funcionar fora do circuito country. Funcionou muito além: entrou na Billboard Hot 100 em 21 de fevereiro daquele ano, na posição 70, e foi subindo semana a semana até parar no número 4, onde ficou congelada por quatro semanas seguidas. No ranking Adult Contemporary, foi ainda mais longe — três semanas no número 1. Mais de um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos e certificado de ouro. No Canadá, chegou ao topo. Na Austrália, número 2.
O detalhe que quase ninguém sabe: quando a MTV foi ao ar pela primeira vez, em 1º de agosto de 1981, o clipe de “Angel of the Morning” foi o primeiro vídeo country a entrar na programação. A canção rejeitada por “indecente” em 1967 tinha virado, catorze anos depois, uma das faixas de abertura da revolução visual da música pop.
O que a letra realmente diz
Quem cresceu ouvindo essa canção sem prestar atenção na letra provavelmente escutou uma balada romântica clássica. Não é bem isso. A mulher da letra passou uma única noite com um homem e, na manhã seguinte, faz um pedido inusitado para a época: ela não quer promessas, não quer que ele fique por obrigação, não quer que ele se sinta preso. Só pede que ele a chame de “anjo da manhã” antes de ir embora, e depois toque o rosto dela uma última vez.
Nos versos, ela diz que “não há necessidade de me levar pra casa, sou velha o suficiente para encarar o amanhecer” — uma frase que, em 1967, chocava por assumir sem culpa a autoria da própria decisão. Era isso que Connie Francis achou pesado demais. E era exatamente isso que fazia a canção soar tão à frente do tempo dela.
Se você gosta desse tipo de balada com voz feminina forte e narrativa direta, vale ouvir também “Bette Davis Eyes”, de Kim Carnes, lançada no mesmo ano de 1981, que também transformou uma cantora relativamente pouco conhecida em fenômeno de rádio depois de anos de tentativas frustradas.
A canção fechou uma trilogia de indicações ao Grammy: Rush em 1969, Newton em 1982 — as duas na mesma categoria. Newton não levou o prêmio, mas ganhou a corrida histórica: a versão dela é, até hoje, a mais tocada e a mais vendida das duas.
Ficha Técnica
Música: “Angel of the Morning”
Artista: Juice Newton
Ano de lançamento: 1981
Álbum: Juice
Desempenho (Chart): número 4 na Billboard Hot 100 (4 semanas), número 1 na Adult Contemporary (3 semanas) — EUA. Número 1 no Canadá, número 2 na Austrália.
Composição: Chip Taylor
Se essa fase do começo dos anos 80 mexeu com alguma memória sua, ter o CD Greatest Hits da Juice Newton (Amazon) por perto é uma forma discreta de trazer de volta as tardes de rádio ligado, quando cada faixa desse disco parecia já ser familiar antes mesmo de terminar de tocar.

