A gente sempre cantou “A Viagem” como uma canção de despedida e volta. Alguém parte, sofre de saudade, e no fim reencontra quem ama. Simples assim — ou não. Porque em 1994, quando o Roupa Nova lançou essa música, ela virou tema de uma novela que falava de outra coisa bem diferente. Falava de vida depois da morte.
Nota do Repeat: Ninguém sabe dizer ao certo qual das duas viagens essa letra descreve. A gente não faz questão de escolher.
Relembre esse clássico no vídeo abaixo!
E a novela colocou um fantasma nessa história
A novela chegou à Globo em abril de 1994. Se chamava “A Viagem” e era refilmagem de uma trama dos anos 70, exibida originalmente pela TV Tupi. A trama foi ao ar entre abril e outubro de 1994, no horário nobre da TV Globo. O enredo tratava de reencarnação e do que acontece depois que a gente morre. Bem diferente do que qualquer um imaginaria só ouvindo o refrão no rádio.
Novela sobre reencarnação não era exatamente inédita na Globo. O gênero folhetim espírita já tinha tradição na emissora e ganharia ainda mais força nas décadas seguintes. “A Viagem” ajudou a abrir esse caminho, embalada por uma canção que ninguém imaginava capaz de carregar tanto peso.
Um dos personagens centrais, vivido pelo ator Guilherme Fontes, morria logo nos primeiros capítulos. Ele virava espírito e passava o resto da trama rondando a própria família. A “viagem” do título ganhava um sentido literal. Não era só ir embora e voltar. Era atravessar pra outro lado e continuar por perto de quem ficou.
Mas quem escreveu a letra não pensava nisso
A letra não cita fantasma, nem menciona reencarnação em lugar nenhum. Ela fala de alguém que sofreu a distância e cruzou “tantos espaços” pra voltar a abraçar quem amava. Um dos nomes por trás dessa letra é Aldir Blanc, letrista conhecido por parcerias históricas da MPB, como as que fez com João Bosco em “O Bêbado e a Equilibrista”. Ali ele assinou ao lado do próprio tecladista do Roupa Nova, Cleberson Horsth — uma dupla improvável para uma letra tão direta.
Aldir Blanc é lembrado por versos politizados, cheios de crítica social. “A Viagem” foge completamente desse estilo. É uma letra romântica, sem parte alguma de protesto — rara nesse trecho do currículo dele. A Globo só juntou letra e trama meses depois de pronta a canção. E esse encontro deu à música um significado que ela nunca teve sozinha.
A canção abria o décimo álbum de estúdio do Roupa Nova, batizado também de Vida Vida. O disco marcava a passagem da banda para os anos 90, depois de uma década de sucesso ininterrupto nos anos 80. “A Viagem” viria a se tornar uma das faixas mais lembradas desse novo momento da carreira.
Quem ouve “A Viagem” hoje, sabendo da novela, escuta outra canção. A separação vira metáfora de despedida definitiva. O reencontro vira promessa de outra vida, não só de outro endereço.
O Roupa Nova voltou a tocar a música ao vivo no show de 40 anos de carreira, gravado em 2022. Em setembro de 2026, a banda subiu ao palco do Rock in Rio e tocou “A Viagem” de novo, mais de trinta anos depois do lançamento. Trinta anos depois da novela, o público ainda canta os versos como se lembrasse dos dois sentidos ao mesmo tempo: o do amor e o da despedida maior.
Trinta anos depois, ninguém mais separa a letra da trama. “A Viagem” virou as duas coisas de uma vez só — uma canção de amor e um hino sobre o que vem depois dele, tocando toda vez que a banda sobe num palco.
Ficha Técnica
Música: “A Viagem”
Artista: Roupa Nova
Ano de lançamento: 1994
Álbum: Vida Vida
Composição: Cleberson Horsth e Aldir Blanc
Curadoria Repeat: quer ouvir “A Viagem” no álbum que a lançou? O CD de Vida Vida, do Roupa Nova, traz a faixa original de 1994 ao lado do resto do disco. Pra quem quer ir além da música, o livro Tudo de Novo: Biografia Oficial do Roupa Nova reconstrói os bastidores da carreira da banda, direto de quem viveu por dentro.
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