A música que a MTV recusou transmitir e que se tornou o maior hit americano do Depeche Mode

"Strangelove" quase não existiu do jeito que conhecemos — e cada detalhe dela foi uma briga.

Em 1987, o Depeche Mode tinha seis álbuns mas ainda não tinha conquistado os Estados Unidos de verdade. A banda britânica era enorme na Europa, enchia arenas na Alemanha, mas no mercado americano ainda era tratada como uma curiosidade de nicho. Um compositor da banda tinha uma nova música que, segundo ele mesmo, poderia mudar isso. O problema é que quase ninguém concordava com o que ela deveria ser.

“Strangelove” começou como uma demo desenvolvida em casa, no estúdio particular de um dos membros, usando Cubase e um Yamaha. Quando foi apresentada aos outros, a reação não foi exatamente entusiasmo imediato. O produtor David Bascombe, que tinha acabado de trabalhar com o Tears for Fears no álbum Songs from the Big Chair, foi chamado para ajudar. E as brigas começaram.

A briga que entrou no disco

O compositor Martin Gore queria um baixo mais rápido e urgente para a música. O responsável pelos arranjos propôs um mais lento, quase arrastado. Os dois não chegavam a acordo. Bascombe disse mais tarde: “Minha contribuição como co-produtor foi simplesmente dizer: por que não usam os dois?” Se você ouvir a versão single de “Strangelove” com atenção, vai escutar dois baixos rodando ao mesmo tempo. Nenhum dos dois cedeu. Bascombe colocou os dois no disco.

Alan Wilder, responsável pelos arranjos, disse em entrevista a uma fanzine suíça que “Strangelove” foi a música mais difícil de montar de toda a carreira da banda até aquele ponto. “A única coisa que me vem à cabeça sobre ‘Strangelove’ é a quantidade de tempo que passamos gravando e as discussões que ela causou. Não consigo nem dizer quantas vezes tivemos que refazê-la.”

Antes de chegar ao que conhecemos, “Strangelove” foi considerada para a trilha sonora de Some Kind of Wonderful, um filme que seria uma espécie de continuação de Sixteen Candles. A banda se retirou do projeto antes de qualquer acordo ser fechado. A música ficou para o álbum Music for the Masses, lançado em 1987.

O clipe que a MTV não quis mostrar

O videoclipe foi dirigido por Anton Corbijn, em preto e branco, nas ruas de Paris. Corbijn usou duas modelos em lingerie em parte das cenas. A MTV nos Estados Unidos recusou transmitir o vídeo com aquelas imagens e exigiu que as cenas fossem substituídas. A versão americana do clipe trocou as modelos por imagens da banda se apresentando. São dois vídeos diferentes para a mesma música — e a maioria das pessoas que cresceu vendo MTV nos anos 80 nunca viu o original.

“Strangelove” foi lançada em 13 de abril de 1987 como o primeiro single do álbum Music for the Masses. Chegou ao número 16 na UK Singles Chart, ao número 2 na Alemanha Ocidental e na África do Sul, e ao Top 20 na Irlanda, Espanha, Suécia e Suíça. Nos Estados Unidos, chegou ao número 50 da Billboard Hot 100 e foi o primeiro de nove números 1 do Depeche Mode no US Hot Dance Club Play Chart, onde ficou três semanas no topo. Foi exatamente o que a banda precisava para finalmente estabelecer presença real no mercado americano.

O que a letra realmente diz

Gore descreveu “Strangelove” em entrevista: “Isso foi percebido como sadomasoquista, mas eu acho que é apenas honesto. Ela faz uma pergunta: você está preparado para ir até o fim nesse relacionamento? Porque vai ser doloroso.” A letra fala de um amor que não segue regras — que tem altos e baixos estranhos, que envolve culpa, pecado, entrega e dor. Gore não escondeu as referências à dinâmica de dominação e submissão, mas sempre insistiu que o centro da música é uma pergunta sobre comprometimento real.

Em 1998, Gore revisitou a música e disse que a achava “uma das mais pop” das coletâneas da banda e que estava “bem no limite certo da comercialidade. É como ‘Enjoy the Silence’ — está do lado certo da linha. Se você passa dessa linha, vira pop sem graça.”

O Depeche Mode se apresentou com “Strangelove” no MTV Video Music Awards em setembro de 1988 e a incluiu no álbum ao vivo 101 (1989), gravado no Rose Bowl em Pasadena diante de 65 mil pessoas.

Quem curte esse mesmo universo de amor com dor e entrega total vai reconhecer o mesmo espírito em “Maria Magdalena”, de Sandra — outro clássico do synth-pop europeu dos anos 80 que coloca vulnerabilidade e rendição no centro de tudo.

Ficha Técnica

Música: Strangelove
Artista: Depeche Mode
Ano de lançamento: 1987
Álbum: Music for the Masses
Desempenho (Chart): #16 UK Singles Chart; #2 Alemanha Ocidental e África do Sul; Top 20 Irlanda, Espanha, Suécia e Suíça; #50 Billboard Hot 100; #1 US Hot Dance Club Play (3 semanas)
Composição: Martin L. Gore

Ter o Vinil Music for the Masses – Depeche Mode em casa é ouvir “Strangelove” no contexto do álbum que finalmente abriu a América para a banda — com os dois baixos, a tensão e tudo que os críticos não conseguiram ignorar. E para quem quer entender como o Depeche Mode construiu uma das carreiras mais singulares do rock eletrônico, Just Can’t Get Enough: The Making of Depeche Mode é o relato mais completo da trajetória da banda desde Basildon até os estádios. (Amazon)

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