“I Should Be So Lucky”: a história de Kylie Minogue que ninguém conta

"I Should Be So Lucky" foi desprezada pela imprensa e adorada por todo mundo. Quarenta anos depois, é patrimônio cultural da Austrália.

Quando “I Should Be So Lucky” chegou às rádios britânicas no início de 1988, uma parte da imprensa especializada não escondeu o que achava. Mark Edwards, da Stylus Magazine, disse que a música era “insuportável — horrivelmente brega e esganiçada”. Outro crítico descreveu o álbum de estreia de Kylie Minogue como datado, genérico e construído para consumo imediato. A conclusão geral era que aquilo não ia durar.

O público não leu as resenhas. Ou leu e ignorou.

“I Should Be So Lucky” estreou na posição 90 da UK Singles Chart. Três semanas depois, estava em primeiro lugar — onde ficou por cinco semanas consecutivas. Chegou ao número 1 também na Austrália, Alemanha, Irlanda, Suíça, Finlândia, Israel e Hong Kong. Ganhou o prêmio de single mais vendido no ARIA Awards de 1988. Em 2011, foi adicionada ao Registro Sonoro Nacional da Austrália por valor cultural, histórico e estético — o equivalente musical de ser declarado patrimônio nacional.

O que os críticos não viram

A letra de “I Should Be So Lucky” foi escrita por Mike Stock num dia em que ele mal sabia quem era Kylie. O empresário dela tinha avisado que ela era atriz de uma novela australiana chamada Neighbours, que tinha acabado de ganhar um Logie Award e que sabia cantar e dançar. Stock pensou em voz alta: ela tem tudo — carreira, dinheiro, estabilidade. O que está faltando? Concluiu que devia ser amor. “Ela é sortuda na vida, mas não no amor.” Escreveu a letra com base numa suposição sobre uma pessoa que nunca tinha visto na vida.

A música que os críticos chamaram de insuportável — e o público colocou em #1 por cinco semanas.

Kylie gravou a música em menos de uma hora. Stock errou a tonalidade — estava baixa demais para a voz dela — e corrigiu na hora, enquanto ela estava atrás do microfone. Depois da sessão, ela voltou para a Austrália para continuar as gravações de Neighbours. Stock e Matt Aitken nem mixaram a faixa. Simplesmente partiram para o próximo projeto e esqueceram. A faixa só foi finalizada depois que o gerente da gravadora ameaçou voar para Londres pessoalmente para cobrar.

O que os críticos descartavam como “fórmula” era exatamente a força da música: uma letra simples sobre querer ser amada, uma melodia que grudava em dois segundos e uma voz que soava como a garota da casa ao lado. Nada disso era acidente — era precisão.

A reviravolta que a crítica não esperava

Quando a música estava há semanas no número 1 do Reino Unido, alguém perguntou a Stock qual seria o próximo single de Kylie. Ele não tinha resposta. Stock voou para Melbourne, encontrou Kylie num bar com Jason Donovan — o namorado dela na vida real, o mesmo par romântico de Neighbours — e pediu desculpas. “Rastejei cem metros de joelhos e me desculpei profusamente”, disse ao The Guardian.

O álbum Kylie saiu em julho de 1988 e foi direto para o número 1 no Reino Unido, onde ficou por quatro semanas. Vendeu mais de cinco milhões de cópias no mundo. Os críticos que tinham torcido o nariz viram a mesma música entrar em sete coletâneas oficiais ao longo das décadas seguintes — de Greatest Hits (1992) a Step Back in Time: The Definitive Collection (2019).

Em 1995, Nick Cave — um dos artistas mais sombrios e respeitados do rock alternativo — sugeriu que Kylie recitasse a letra de “I Should Be So Lucky” como poesia no Poetry Jam do Royal Albert Hall, em Londres. A música que tinha sido chamada de “esganiçada” foi apresentada num dos palcos mais tradicionais da cultura britânica, como literatura.

Quem curte esse mesmo padrão — música desprezada pela crítica que o público transforma em clássico — vai reconhecer a mesma história em “If You Don’t Know Me By Now”, do Simply Red: outro hit britânico dos anos 80 que a imprensa tratou com reservas e o público colocou no topo.

A crítica chamou de descartável. O tempo chamou de clássico. E a Austrália chamou de patrimônio nacional.

Ficha Técnica

Música: I Should Be So Lucky
Artista: Kylie Minogue
Ano de lançamento: 1987 (single); 1988 (álbum)
Álbum: Kylie
Desempenho (Chart): #1 UK Singles Chart (5 semanas); #1 Austrália (6 semanas); #1 Alemanha, Irlanda, Suíça, Finlândia, Israel e Hong Kong; #28 Billboard Hot 100 (EUA)
Composição: Mike Stock, Matt Aitken, Pete Waterman

Se você estava lá quando “I Should Be So Lucky” tocou pela primeira vez — ou quer entender o que havia de tão especial naquela época — o CD Step Back In Time: The Definitive Collection é a forma mais direta de voltar ao começo de tudo. E para entender como Stock, Aitken & Waterman construíram uma geração inteira de hits naquele estúdio, o livro Stock Aitken Waterman: The Hit Factory é um relato direto de quem estava lá dentro. (Amazon)

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