Em 1987, as gravadoras olhavam pra Terence Trent D’Arby e enxergavam um problema específico. Segundo ele mesmo contou depois, a reação de muitos executivos era “lá vem outro Michael Jackson ou Prince — quem precisa disso?”. Pra qualquer artista, ouvir seu nome ao lado dos dois maiores astros do pop seria motivo de orgulho. D’Arby ficou incomodado. Ele achava que merecia mais do que uma comparação.
A confiança não vinha do nada. Nascido em Manhattan, filho de uma cantora de gospel, D’Arby foi campeão de boxe amador na Flórida antes dos 20 anos. Depois entrou pro exército americano, foi parar numa base na Alemanha e desertou. Virou líder de banda por lá, até se mudar pra Londres em 1986 e assinar com a CBS Records.
A prova que ele prometeu entregar
Foi em Londres que D’Arby gravou “Wishing Well”, parceria dele com o baixista Sean Oliver. A música saiu como single em junho de 1987, dentro do álbum de estreia Introducing the Hardline According to Terence Trent D’Arby.
Antes do disco sair, ele já tinha declarado à imprensa britânica que aquele era “o álbum de estreia mais brilhante de qualquer artista daquela década”. Não uma comparação — uma afirmação. E o público comprou a ideia: “Wishing Well” chegou ao número 1 da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos, e ficou no top 5 do Reino Unido. O disco ainda rendeu a ele um Grammy de melhor performance vocal de R&B e o prêmio BRIT de artista revelação internacional.
Ouça “Wishing Well” e entenda por que ele achava pouco ser comparado aos maiores nomes do pop.
Nem todo mundo comprou o personagem, no entanto. Nos Estados Unidos, parte do público via a bravata como arrogância barata, não como confiança justificada. A imagem de “gênio que se autoproclama gênio” rendeu tanta crítica quanto elogio — e ajudou a moldar como a carreira dele seria lembrada depois. É um risco parecido com o que o Milli Vanilli enfrentou na mesma década: um ato definido por hype que não se sustentou a longo prazo.
Quando a ironia é maior que a letra
“Wishing Well” fala de esperança, não de arrogância. O título é a imagem de alguém jogando uma moeda num poço dos desejos, pedindo em silêncio pra reconquistar quem já amou. É uma letra sobre pedir baixinho — bem diferente do homem que declarava pra imprensa ser o maior de sua geração.
Anos depois, o próprio D’Arby amenizou o discurso da época.
“As pessoas perderam a nuance — a parte da genialidade era piada. Eu tirava sarro da própria imagem arrogante que eu tinha construído.”
Chegou a comparar o próprio personagem a uma “imitação de Muhammad Ali”: um jogo de provocação, não uma crença literal em ser melhor que qualquer outro artista.
O segundo álbum não teve a mesma sorte
O disco seguinte, Neither Fish nor Flesh, saiu em 1989 e foi na contramão do que se esperava — mais experimental, menos parecido com hit de rádio. As vendas caíram, e boa parte do público que tinha comprado a ousadia de 1987 não acompanhou a virada.
A carreira nunca voltou ao mesmo patamar. Em 2001, D’Arby foi além de qualquer mudança de som: trocou legalmente de nome. Terence Trent D’Arby virou Sananda Maitreya, nome que, segundo ele, veio de sonhos recorrentes desde 1995 e significa “renascimento” em sânscrito.
Nota do Repeat: ele achava pouco ser comparado a Michael Jackson e Prince. A gente entende o exagero — mas “Wishing Well” continua tocando bem depois da provocação ter sido esquecida.
Ficha Técnica
Música: “Wishing Well”
Artista: Terence Trent D’Arby
Ano de lançamento: 1987
Álbum: Introducing the Hardline According to Terence Trent D’Arby
Desempenho (Chart): #1 na Billboard Hot 100 (EUA); #4 no UK Singles Chart
Composição: Terence Trent D’Arby e Sean Oliver


